AniBahia ou só mais um evento?

     Antes de começarmos oficialmente com o texto queria deixar claro que se você acompanhou meus dois textos anteriores e gostou, infelizmente esse não será de uma escrita semelhante. Isso por que esse texto não será sobre um assunto especifico e sim sobre a cobertura de um evento. Por eventualidades do destino não consegui gravar ele em vídeo e para tentar suprir essa falta estou aqui hoje para escrever um texto do que achei do mesmo, como é de praxe da minha personalidade não posso deixar de comentar o assunto de uma forma um pouco mais profunda.

     Anibahia é um evento de cultura Otaku que voltou pra Salvador depois de 5 anos em hiato e para voltar com chave de ouro resolveu fazer o evento onde tudo começou: Faculdade Unijorge da paralela. Prometendo e investindo em grandes atrações como Inoue, Tauz, Random Sentai e outros, tendo como intenção se tornar novamente o maior evento de cultura oriental da Bahia, algo como o Anime Friends é pra São Paulo. Mas a questão é se os organizadores conseguiram um grande retorno.

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     Talvez o maior problema atualmente não seja conseguir chegar ao topo dos melhores eventos de Otaku mas sim trazer as atrações mais chamativas. Gostando ou não, é nítida a mudança desses eventos nos últimos anos, o que antes era um local de pessoas “estranhas” e com gostos “bizarros”, hoje se tornou em sua grande maioria uma reunião de fãs de grandes celebridades da internet, até os maiores eventos caíram nas graças dos youtubers. O AniBahia tentando entrar nesse grande circulo, não fez menos trazendo Muca e Inoue como uma das atrações, infelizmente o evento não conseguiu voltar com chave de ouro, mas isso eu falo um pouco mais a frente.

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     O evento em si foi uma experiência interessante, porém, nada único, como sempre tivemos alguns cosplayers e barracas de vendas, mas algo em particular me chamou atenção, o evento estava completamente vazio e abandonado. Barracas com seus vendedores entediados e cabisbaixo por estar sem clientes, cosplayers e participantes do evento andando pra lá e pra cá sem rumo algum, a sua grande maioria estava em frente ao palco mas mesmo assim nada surpreendedor apenas um aglomerado de pessoas, foi algo bem diferente de se ver.

      Nos últimos cinco anos, esse é o segundo evento que eu vou e a diferença entre eles é algo gritante. Lembro que em 2011 fui em um evento muito famoso aqui em Salvador chamado Anipolitan e na época eu conseguia enxergar vários grupos de amigos, várias pessoas fazendo novas amizades, grupos sentados em roda brincando com algo e afins, era algo relativamente divertido, talvez o palco de atrações fosse a menor das nossas preocupações.

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     O que aparenta é que o evento é o maior culpado de ter um baixo público, mas na verdade, o que aconteceu é a grande mudança do mesmo.

     Se levarmos em consideração que em 2011 as pessoas nascidas no nosso atual século ainda eram crianças e o termo vlog era algo novo e que os desenhos eram algo muito fresco em suas respectivas cabecinhas, vamos chegar a conclusão de que a cara da nova geração são os próprios Youtubers, o que os eventos vêm fazendo é tentar se adaptar a esse novo pessoal. O que muita gente acaba vendo como algo ruim mas não é.

As celebridades da internet são ferramentas muito importantes para que esses eventos continuem acontecendo, isso por que por mais divertido que pareça pra nós, isso tudo é muito estressante para alguém que está organizando e espera o seu retorno financeiro. Um público cheio é sinônimo de retorno, mais retorno é sinônimo de que terá mais conteúdo. Os eventos estão passando por uma grande adaptação de publico apenas para continuar existindo.

     Mas nem todos os eventos são assim, uma pequena parcela ainda consegue trazer um evento inteiramente Otaku, entretanto o seu público por ser algo mais fiel acaba sempre sendo o mesmo e eventualmente isso pode gerar um declínio forçando a contratação dos Youtubers,por isso a importância dessa adaptação. Em 2011 nós tínhamos muito a questão do precisar sair para fazer novas amizades, atualmente com milhões de redes sociais já não existe essa necessidade, o que pode, com o tempo causar certo desinteresse em algumas pessoas pela falta de atividades.

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     Por fim,  o que eu presenciei nos dias de ocorrência do evento foi exatamente a consequência dessa transição de publico, algo um pouco bagunçado e vazio mas com grande potencial.  Ainda vamos percorrer um grande caminho para que essa situação comece a mudar e teremos uma grande parcela de eventos passando por dificuldades, mas é importante o apoio para que os organizadores comecem a entender o foco na divisão igualitária dos gostos ao invés da privatização do publico com  youtubers. Isso sim, pode ser uma solução real.

  • igor goes oliveira

    Parabéns pelo textão Rodrigo! Mas eu não sei o que me surpreende mais, vc ter perdido o voo de volta para “casa” ou uma “review” de um evento na Bahia, essa duvida está me matando kkk. Mas brincadeiras a parte, você pautou uma situação que se encaixa muito bem no seu texto estereótipo otaku, até porque essa abertura dos eventos de “anime” para novos públicos, quebram o antigo preconceito das pessoas e recicla a comunidade, que foi o que aconteceu com os universos geek e gamer, mas não no mesmo nível.

    A situação atual é como você falou, é um processo de transição, e dentro desse processo há aqueles que não concordam com essa mudança e mantém uma ideologia conservadora(parece que estou falando de direita e esquerda), com massivas criticas as essas alterações, se fomos considerar o panorama em sua plenitude, é algo natural, o objetivo dos eventos é primeiramente o lucro, apesar de eu não gostar da mudança, seria muito egoísmo da minha parte desconsiderar todos os outros fatores que levaram a essa mudança, sejamos sinceros, um evento feito apenas com animes não se sustenta mais, depois de tantos é impossível inovar completamente um evento preso a um único tema, a sensação da primeira vez não volta mais, e sem essa sensação os organizadores tem que recorrer a outros métodos e essa renovação do publico por meio das atrações é a maneira mais barata de manter o evento cheio.
    A divisão de atrações é outro problema do novo molde de eventos, e ele tem um efeito muito mais impactante do que parece, usando o anime friends como base, ele tem um publico gigantesco e grande parte das vendas tem ligação com animes, direta ou indiretamente, com a decadência das atrações que tenham relação com os animes faz com que as pessoas repensem em ir em um evento que não traz o que eles querem, reduzindo um publico X e fazendo com que as lojas de vendas especificas tenham prejuízo, criando uma “bola de neve” que pode acabar de vez com um publico do evento.

    No âmbito dos animes o real problema é o que trazer, nós temos duas bases, uma da nostalgia e outra dos que realmente acompanham animes mais “underground”, e como eles vão trazer atrações baseadas na maioria, porque eles iriam trazer um diretor, compositor sonoro, criador de um anime? Pelo preço a ser investido e um retorno duvidoso, não há porque se arriscarem tanto, diferente do universo geek, trazer um alguém de uma Staff de anime X não vale a pena, porque o nosso publico não se importa com isso, o conhecimento da indústria está em ultima instância nas preocupações dos “consumidores”, e se vier só vem os Shounens, que é o pedido da maioria, e os eles nem de longe representam o que são os animes, que é o que ocorre nos eventos, por isso é difícil até de pedir uma atração, porque ela teria de ser reduzida ao nicho de Shounens e coisas que fazem muito sucesso, nunca que vão trazer um Gen urobuchi ou uma Yuki Kajiura, porque é algo de um nicho muito especifico, fazendo com que a base da indústria dos animes seja reduzida a simplórios shounens populares. Talvez no futuro animes menos conhecidos e até animes de temporadas possam ser alvo dos eventos, mas atualmente não é lucrativo e também seriam uma incerteza. Cara como vc consegue fazer um “review” de um evento virar uma reflexão sociologica, vc é o nordestino mais “zica” que eu já vi kkkkkk, abraços!

  • Clara Kumagami

    Acredito que o problema do Anibahia é a perda da identidade. Não me importo com a introdução de novos segmentos nos eventos de anime, até porque transformação e crescimento é a chave para a evolução ^.^v. Um bom exemplo disso é o Anipolitan ter deixado de ser um evento de cultura japonesa e passar a ser de cultura oriental, inserindo o K-pop, por exemplo, na sua grade.
    O problema é que durante anos a produtora do Anibahia errou muito com o público soteropolitano. E de fato ainda existem conservadores, mas também, mesmo com a advento das redes socias, muita gente indo para estes eventos com a intenção de se conectarem com outros “weirds” como eles, independente de youtubers. O público daqui ainda está receoso com o Anibahia, então acho normal que no primeiro evento, depois de um hiatos longo, ter um numero baixo de gente.
    Eu não me considero uma conservadora e sim uma “weird”, então quando vou para esses eventos é para me divertir. Mas esse ano não fui para para o Anibahia por causa de outro problema dos eventos de “otaku” daqui de SSA, aos poucos vão ficando repetitivos. Assim, se for para ver mais do mesmo, que seja em um evento de qualidade como o Anipolitan.

    Amei o texto ;*